Covid-19: desafios para atenção à saúde mental

No contexto de pandemia do novo coronavírus, é crucial fortalecer a capacidade de resposta dos serviços não especializados em saúde mental e garantir que a população mais vulnerável tenha acesso à atenção psicossocial. A recomendação é da psicóloga Catarina Dahl, consultora em Saúde Mental da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas. Nesta entrevista, ela comenta os desafios que os sistemas de saúde vêm enfrentando, em todo o mundo, para promover cuidados em saúde mental durante a pandemia e reforça a importância da intersetorialidade na atenção à saúde.

Como a saúde mental pode ser afetada pela pandemia de Covid-19?

A OMS estima que de 30% a 50% das pessoas podem vir a desenvolver algum tipo de sofrimento psíquico ou problema de saúde mental no decorrer da pandemia. O isolamento social, medo do contágio, o luto devido a perda de entes queridos, as restrições de mobilidade, o distanciamento físico, a falta de trabalho e as perdas financeiras relacionadas ao desemprego são situações relacionadas à Covid-19 que tendem a produzir efeitos na saúde mental e no bem-estar psicossocial. De fato, tudo isso vem aumentando as experiências de estresse, tristeza e até depressão e ansiedade, mas é preciso ter cuidado para não alardear que haverá uma epidemia de saúde mental, que as pessoas vão ficar todas doentes. A tendência é que esses quadros melhorem após a retomada da normalidade sanitária. Agora, é preciso estar atento, sobretudo, às pessoas que já estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica e psicossocial, ou com condições de saúde mental pré-existentes, que têm maior probabilidade de piorar durante a pandemia.

Quais os principais desafios para promover a atenção psicossocial durante a pandemia?

Em âmbito global, sabemos que aproximadamente 75% das pessoas que precisam de tratamento em saúde mental, não têm acesso, e a maioria delas estão em países de baixo e médio poder econômico. Essa lacuna de cuidado representa um desafio importante, já que são justamente esses os países que mais precisam fortalecer seus sistemas de saúde e os cuidados em saúde mental. Localmente, todas as intervenções e abordagens de saúde mental e apoio psicossocial devem ser pensadas no contexto de isolamento social e distanciamento físico, o que torna tudo mais difícil. As intervenções precisam ser feitas de forma remota, sem contato presencial. As ferramentas existem, mas elas precisam estar disponíveis para todos e todas. Sabemos que em países de baixa-média renda, como o Brasil, grande parte da população não tem acesso regular à internet, o que dificulta bastante as possibilidades de cuidado remoto.

Quais as estratégias recomendadas nesse cenário?

É necessário fortalecer a capacidade de resposta dos sistemas de saúde. Apoiar os profissionais dos serviços especializados e, principalmente, os não especializados em saúde mental. Refiro-me à Atenção Primária à Saúde, à rede intersetorial, aos sistemas de educação e assistência social. Além disso, é fundamental dar suporte às comunidades, para que elas próprias, por meio de suas lideranças, possam prestar os primeiros cuidados psicológicos para a população.

Que ações vêm sendo desenvolvidas em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ)?

A OPAS/OMS disponibilizou um pacote de treinamento, com orientações e material de apoio, para a SES-RJ. Parte desse material, produzido originalmente em inglês pela OMS, já foi traduzido ou está em fase de tradução para o português e para a realidade brasileira – um trabalho de adaptação pedagógica que vem sendo desenvolvido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A proposta é oferecer esse conteúdo por meio da plataforma Telessaúde, que tem expertise na educação a distância de profissionais de saúde. O conteúdo original integra o Programa de Ação para Reduzir as Lacunas em Saúde Mental (mhGAP – mental health GAP, em inglês) e o Guia de Intervenção para o Manejo Clínico de Condições Mentais, Neurológicas e de Uso de Substâncias em Emergências Humanitárias em locais onde o acesso a especialistas e opções de tratamento é limitado. É uma ferramenta simples e prática que visa apoiar os sistemas de saúde em áreas afetadas por emergências humanitárias e reduzir as lacunas de cuidado para as pessoas que necessitam de tratamento em saúde mental.

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