Inovação em saúde mental: telecuidado durante a pandemia de Covid-19

Sensação de falta de ar. Ansiedade. Medo de morrer. Uma dúvida sobre aquela notícia que chegou pelo celular. Muitas foram as razões que, durante a pandemia de Covid-19, levaram milhares de pessoas a buscar o teleatendimento em saúde. Juntamente com médicos e enfermeiros, diversos psicólogos se revezaram para prestar cuidado por via telefônica à população fluminense, esclarecer questões de saúde, acolher sofrimento psíquico e encaminhar casos graves para atendimento no território.

Apoiadora no telecuidado, Lidiane Toledo conta que os casos de sofrimento psíquico começaram a aparecer já na primeira semana de funcionamento do serviço. “Eram casos de ansiedade, angústia, medo de morrer – isso foi bem frequente – e pessoas com relato de ideação suicida. Alguns quadros tinham relação bem estreita com o novo coronavírus, outros não. Percebemos que muitas questões relatadas como sintoma de Covid-19 eram, na verdade, problemas de saúde mental. A falta de ar, por exemplo, muitas vezes era causada pela ansiedade”, descreve Lidiane.

Para orientar o teleatendimento em Saúde Mental, a Superintendência de Atenção Psicossocial e Populações Vulneráveis (SAPV) da SES-RJ elaborou perguntas e respostas com orientações sobre manejo de ansiedade, depressão, luto, automutilação, ideação suicida e outras questões relacionadas ao sofrimento psíquico. “Os documentos também traziam a lista de serviços de Saúde Mental do estado do Rio de Janeiro, para que os enfermeiros e psicólogos pudessem indicar onde procurar ajuda no território, quando necessário”, informa Alice Menezes, assessora técnica da SAPV/SES-RJ.

Estratégias de cuidado

O método inovador de cuidado em saúde mental chegou, também, aos profissionais de saúde que estão na linha de frente da resposta à pandemia de Covid-19, com um fluxo especial para um encaminhamento mais ágil e resolutivo, com escuta qualificada e afetiva. Quando necessário, o caso era encaminhado para acompanhamento de médio ou longo prazo ao Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ou à Cruz Vermelha, parceiros nesta iniciativa.

O coordenador de Atenção Psicossocial da SAPV/SES-RJ, Daniel Elia, conta que foi estabelecida uma escala de matriciamento com colaboradores nos territórios, disponível diariamente das 6h à meia-noite, para atender à nova demanda com a resolutividade necessária. “O matriciador do território cumpria duas funções principais: orientar o manejo imediato no momento da ligação – por exemplo, indicar o acionamento do Samu em casos graves de ideação suicida – ou articular o acompanhamento do paciente pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e pela atenção básica, se possível virtualmente. Quando o enfermeiro identificava uma situação que ele teria dificuldades para manejar sozinho, acionava o supervisor de enfermagem, que ligava para um matriciador de saúde mental, responsável por orientar on-line as condutas específicas para cada caso”, resume o coordenador de Atenção Psicossocial da SAPV/SES-RJ.

A psicóloga Rafaela Oliveira Grillo, que atuou como supervisora clínica do serviço de teleatendimento, avalia que a estratégia promoveu o acesso à rede de atenção psicossocial a pessoas que precisavam desse cuidado e não estavam sendo atendidas – porque não percebiam que precisavam de acompanhamento profissional ou porque não sabiam onde procurar ajuda. “Abrimos um canal de atendimento gratuito para pessoas com problemas de saúde entrarem em contato com um profissional qualificado, da segurança de sua casa. Mais do que orientações, prestamos o acolhimento afetivo num momento delicado para todos. Muitas pessoas retornavam a ligação, apenas para agradecer. Esse é o nosso maior reconhecimento”, destaca.

Para a superintendente da SAPV/SES-RJ, Karen Athié, a experiência inovadora deve inspirar outras iniciativas de telecuidado em saúde mental. “Aprendemos muito e, agora, temos novas estratégias para articular a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do estado do Rio de Janeiro”, conclui.

FIQUE POR DENTRO