Atenção à população em situação de rua no território da APS e COVID-19 

A população em situação de rua apresenta uma maior condição de vulnerabilidade por se tratar de grupo populacional heterogêneo, que sofre com uma série de violações de direitos, enfrentando a pobreza extrema, os vínculos familiares rompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular. Considerando esse cenário, as Equipes de Consultório na Rua (eCR) devem ter clareza do fluxo de atendimento a esta população na Rede de Urgência e Emergência (definido em cada localidade – município ou estado), e trabalhar de forma articulada com as demais equipes da Atenção Primária à Saúde / Estratégia Saúde da Família e equipamentos de saúde do território, o que contribui de forma efetiva para o desempenho clínico-assistencial.

Condições que devem ser levadas em consideração ao planejar ações de combate ao COVID-19 para População em Situação de Rua:

● O contexto da vida na rua dificulta o isolamento ou o distanciamento social dessa população por diversos fatores, dentre eles o fato das aglomerações se caracterizarem como forma de proteção e manutenção do aquecimento corporal durante as noites;

● A população em situação de rua não tem acesso a informações sobre cuidados e prevenção ao vírus através de meios como televisão, internet, rádios, jornais e telefone;

● A população em situação de rua não tem acesso a máscaras e álcool em gel, por meios próprios;

● A orientação de isolamento social (quarentena) da maior parte da população, a considerável diminuição da circulação de pessoas nas ruas e o fechamento do comércio, especialmente restaurantes e lanchonetes, diminuíram o acesso da população em situação de rua a alimentos e água e limitaram o uso de sanitários e espaços para higiene pessoal;

● Os Serviços de Acolhimento Institucional, como abrigos institucionais e casas de passagem e isolamento, possuem um quantitativo de vagas limitadas, insuficientes para o público. Além disso, alguns espaços não atendem aos parâmetros de funcionamento constantes da Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, apresentando assim espaços inadequados, improvisados e com superlotação.

Medidas de controle

A Atenção Primária à Saúde é responsável pelo cuidado das pessoas de seu território, inclusive das pessoas em situação de rua. Nesse sentido, as orientações de medidas de controle apresentadas abaixo se direcionam às equipes de consultório na rua e aos demais tipos de equipe de APS.

● Os profissionais devem utilizar uma linguagem mais acessível às pessoas em situação de rua acerca das medidas preventivas, explicando o que é o COVID-19, como se dá a transmissão e os impactos desta doença para população;

● Os profissionais devem atuar em conjunto com a rede local, prioritariamente com a rede SUAS, considerando o local de permanência da população em situação de rua, com o intuito de orientar que evitem temporariamente alta exposição a grandes movimentações de pessoas e medidas de prevenção, como atentar-se à ventilação adequada dos espaços compartilhados;

● Avaliar, ainda, com pessoa em situação de rua o seu local de permanência a fim de identificar formas de garantir as medidas apresentadas no item anterior;

● Limpar e desinfetar diariamente as superfícies tocadas com maior frequência. Os produtos ideais para a realização da limpeza são sabão ou detergente doméstico; para desinfecção utilizar hipoclorito de sódio a 0,5%.

As equipes de APS devem orientar a população em situação de rua no combate à disseminação do coronavírus, alertando-as a respeito das seguintes medidas de prevenção:

● Evitar multidões e locais com aglomerações, com mais de 10 pessoas, se possível;

● Lavar as mãos, sempre que possível, utilizando água e sabão;

● Caso não consiga, com frequência, lavar as mãos, ter acesso a álcool em gel, utilizando sempre que passar por lugares com muitas pessoas;

● Não compartilhar barrigudinha, beck, canudo, cachimbo, cigarro e similares;

● Não compartilhar talheres, vasilhas, copos, garrafas e outros utensílios;

● Não abraçar, beijar, apertar as mãos dos companheiros (as), cumprimentando-os afastadamente;

● Quando estiver com as mãos sujas, evitar tocar os olhos, boca e nariz;

● Evitar aglomerações nos momentos de busca por alimentos. Se tiver fila manter distância de 1,5m do outro companheiro (a);

● Manter os espaços de permanência e pernoite o mais limpo possível;

● Colocar o cotovelo na frente da boca ou do nariz ao tossir ou espirrar;

● Quando dormir próximo a outras pessoas, deitar com posições alternadas (um de cima para baixo, outro de baixo para cima; de modo a não ficar cabeça com cabeça);

● Cuspir/escarrar no chão faz o vírus disseminar rapidamente. Se precisar expelir qualquer secreção pela boca, vá ao banheiro, se possível, ou utilize um recipiente (como lata, sacola) que deve ser descartado em seguida.

Como proceder em caso de sintomas?

Os profissionais de saúde devem orientar a população em situação de rua, no que diz respeito às situações em que devem procurar o serviço de saúde e como proceder se estiver com sintomas:

● Se estiver com coriza e mal-estar: Tentar ficar isolado/ separado das outras pessoas;

● Se tiver tosse ou febre: procurar a unidade de saúde mais próxima, solicitar máscara na unidade, devendo trocar regularmente quando estiver suja;

● Quando houver falta de ar: procurar IMEDIATAMENTE a unidade de saúde mais próxima e utilizar máscara, se tiver.

As equipes de APS devem ainda estar atentas aos sinais de agravamento dos sintomas conforme já descrito neste plannas unidades da rede pública e privada de ensino, inclusive nas unidades de ensino superior

Recomendações gerais

● É imprescindível que a população em situação de rua, quando abordada, seja orientada sobre a rede de atendimento e demais serviços de saúde e socioassistenciais que podem acolhê-lo de forma segura no atual cenário de pandemia, destacando que não é obrigação aceitar o serviço ofertado, mas também a importância, o benefício e as opções de instituições de acolhimento;

● É importante que as equipes de APS criem um canal de comunicação contínuo com a secretaria de saúde do município, a fim de compartilhar informações e planejar ações de proteção para população atendida;

● As equipes podem ter em mãos informações que estão funcionando na rede, como: lista de abrigos disponíveis, locais que oferecem alimentação e serviços de saúde mental e assistência social.